Sobre o livro Um sol para cada um
Crítica do Flanar - Francisco Rocha Junior
Um sol para cada leitor
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Li de um tapa, neste final de semana, o último livro do escritor e teatrólogo Edyr Augusto Proença, “Um sol para cada um” (SP, 2008, Ed. Boitempo).
A edição da Boitempo, da publisher paraense Ivana Jinkings, é bem cuidada, com orelha da atriz e professora Wlad Lima e prefácio do escritor paulista Nelson de Oliveira. O livro apresenta 36 contos curtos, quase todos ambientados em Belém. Na única exceção, o conto Putz, os personagens estão em São Paulo, mas são do interior do Pará.
Edyr Augusto desfila temas violentos e cruéis, em uma linguagem crua e muito, muito urbana. Seu texto lembra o Rubem Fonseca de "Histórias de Amor" (Companhia das Letras, 1997): frases curtas, texto veloz, sem metáforas ou volteios. Edyr Augusto não esconde nada, não deixa de dizer nada, não subterfugia nada. O conto Um cara legal é o maior exemplo disso: da aproximação à prisão, passando por tudo o que há de mais hediondo, a história de um pedófilo é narrada de modo direto, em detalhes. Há que se ter estômago forte.
O livro não é, pois, de modo algum, um mar de rosas. Há momento, porém, delicados, exatamente como na vida. Pedofilia, suicídio, traição, luxúria e mortes, muitas mortes – motes inevitáveis para romances que se passam em meio urbano e focam sempre nos personagens (não há descrições de cenas em “Um sol para cada um”) – transitam entre uma e outra história de desejo, de amor adolescente e de reencontro. Na mescla entre delicadeza e degradação moral, no entanto, ganha a última, por escore dilatado.
A escrita de Edyr chama a atenção, ademais, por dois aspectos, inusitados e muito bem-vindos entre nossos escritores.
Primeiramente, apesar do cenário regional, não há regionalismos, nem odes à terra natal. As histórias poderiam se passar em qualquer outra metrópole. Porém, como têm Belém como pano de fundo, é respeitado o linguajar mundano paraense. Não há xingamentos apaulistados ou acariocados; as personagens falam como falamos nós, nossos vizinhos e conhecidos, no dia-a-dia, diante de situações extremas. Afinal, não há nada mais violentamente paraense que “eu me abro pra ti, sabia? Só me abrindo. ‘Bora, porra, levanta (...) Hei! Tô falando! Porra, fala comigo. Fala! Deixa de graça! Te dou umas porradas, hein?”, ou agoniadamente paraoara que “ih, seu Tatá, eu hoje não estou boa, o senhor já me conhece, quando eu chego assim, meio escabreada, quando eu não respondo logo Bom dia pro senhor, hoje é daqueles dias...”.
Além disso, Edyr mostra-se mestre nos discursos, diretos e indiretos, de seus personagens. O ator desenha as cenas, as mudanças de local, de humor e de circunstâncias quando põe os protagonistas para falar ou para responder aos secundários que com eles contracenam. É neste momento que seu texto se movimenta, rápido, sem parar, sem tempo para descrever ou contemplar qualquer coisa.
Bom livro. Recomendo. Vou à cata de “Casa de Caba” e “Moscow”, livros de Edyr Augusto ainda editados, que já vi por aí, em livrarias da cidade. Quando os achar, darei meu pitaco por aqui.
Pensamentos sobre a teatralidade
Tadeusz Kantor, Sea Concert ( The Panoramic Sea Happening), 1967
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A teatralidade se dá através de
procedimentos que levam o espectador à percepção do que é cotidiano e do que é
representacional.
É o olhar de quem vê que reconhece
a teatralidade.
A teatralidade não existe por si
só, e sim por uma série de deslocamentos de eventos ou objetos do cotidiano
para uma representação.
Entre a realidade e um outro lugar
(representação) há uma fenda, esse seria o espaço da arte. E é essa dualidade
que estabelece o reconhecimento da teatralidade. O espectador sempre vê o
objeto nesses dois lugares, assim como vê o ator e a personagem ao mesmo tempo.
A teatralidade seria o resultado
desses dois pinçamento simultâneos:
O espaço cotidiano O espaço representacinal
realidade ficção
A teatralidade não é uma
propriedade, ela é apreendida ao longo de um processo.
Teatralidade tem a ver com o
olhar, não exatamente com a natureza de um objeto, ela se dá pelo investimento.
O olhar postula e cria: condições
da teatralidade; recolocação do performer no cotidiano; resignificação do
espaço.
Teatralidade é um ato performativo
que cria o espaço virtual do outro. Opera na fissura do espaço cotidiano
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