Eu Mereço


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Quando o porteiro, ao interfone, avisou que a polícia estava subindo, trancou-se no banheiro. Do armário, tirou a cardela de Haldol e foi calmamente engolindo os comprimidos, um por um, evitando a pressa e o possível engasgo, ajudando com água. Durante os poucos minutos que levou ingerindo, foi ficando entorpecida, mas não o suficiente para deixar de ouvir a campainha tocando, a empregada abrindo e, após alguns instantes, as batidas na porta, seguidas de pedidos, ameaças, o que a essa altura não tinha condições de avaliar. Viu-se distante do próprio corpo, como que assistindo a cena em que a porta do banheiro foi arrombada e policiais entraram, levaram um susto mas imediatamente chamaram uma ambulância. A empregada, com as mãos  no rosto, chorava. E antes da ambulância, o marido e o filho, estupefatos. E agora, quem iria dizer-lhes o que fazer da vida? [...]


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Trecho do livro Um Sol para cada um/ Edyr Augusto Proença/Editora Boitempo/2008